trama textual em desconstrução

 

Gritar em Praça pública

Agitar em praça pública

Algum pró ou contra alguém ou alguma coisa

 

Vimos desfilar entre as colunas da História

A glória e a derrota de ditadores e de guerrilheiros

No grande palco da História vemos

As cenas de um mundo entre satélites e elites... celulites... celulares...

Cenários lúdicos e iluminados nas telas televisivas... Tele-invisíveis

Manipulações... Big-Brodantes... bombantes...

 

Bombas e sombras de povos

Que amargam a miséria e a esperança

A fome e os fantasmas da guerra que retorce as entranhas

 

Crianças esquálidas...

Velhos líquidos... desmanchando as intenções de ser

Intervenções... Invenções... Assombrações...

Seres inseridos na ferida diária da morte que não permite renascer...

 

Gritar em praça pública

Convocar em praça pública

O povo...

Para a grande lição que está por vir

Para a grande lição que está por ser

Uma lição maior - entre menores possibilidades

E muita polititica... paralítica... apocalíptica...

 

Gritar em praça pública

Convocar em praça pública

O povo para a grande mudança

Sem medo das máscaras derretidas de terror

 

Vimos acorrentar as asas do pássaro da esperança

 

E ele diluiu-se no azul

Perdeu-se de vista, voou distante

Mas deixou a marca da sua imagem

Nos olhos e na cara de uma geração inteira

Que tem preso na garganta o grito de Liberdade...

Pronto para ecoar em todas as praças em todos os lugares

 

Contra a peste solta e a melhor das intenções

As dívidas que somam mais alto que o salário

Fogo cruzado no jogo de xadrez do Planalto

E o assalto diário e compulsório

Cobrando a dívida-ardida, árduo ardil...

No Plano do Alto a favor do FMI e do Risco Brasil

Contra a proposta de vida da comunidade

Sem proposta de vida... Esquecida de si mesma

Calada, forçada, forjada por governos mascarados

 

Mas, com tudo (contudo), porém, todavia...

Não é nossa intenção é o que respondem depois da inflação...

Inflamação – infra-ação...

Não é nossa intenção é o que respondem

depois do alarde geral da Nação

da escassez de produtos, da economia furada,

da criançada desnutrida...

Falta comida...

 

Mas a melhor das intenções gerou:

Dívida externa e Dúvida interna...

Dívida externa e desculpas mil

Para duas mil Itaipus...

Quinhentas Angras dos Reis e nenhuma Educação...

Muitas escolas para formar semi-analfabetos...

 

GA-GUE-GUE-JA-JA-JA-DO-DO-DO-RES DA LE-LE-LEI-TU-RA DA VI-VI-VIDA

 

Sem compreensão alguma do cotidiano

E nenhuma formação melhor que a divisão

Para governar a estupidez e a corrupção

Nenhuma formação melhor

Que não saber somar para não multiplicar esforços e...

Di-mi-nu-ir o potencial (nacional)...

 

Nenhuma formação melhor que enfileirar

E obrigar a decorar o samba nacional

De uma sociedade totalmente deformada

No seu sistema de lealdade

Distorcida política... administrativa...

e juridicamente sem segurança

 

Conduzida ao caos... amassacrada...

Sem alimento, saúde, educação...

Submetida aos meios de comunicação à uma ordem

Sob o controle de um poder

Paternalista... a perder de vista...

publicado em imensas listas...

 

Feudalismo disfarçado em Administração Moderna

E apoiado em todos os Absurdismos possíveis

De todos os ismos absolutistas...

Exclusivistas, excludentes em nome da autoridade

Da autoria das idéias... autoritárias... autorizadas...

Desacato autoridade – de-sa-ca-to

de-sa-ca-to, de-sa-ca-to, de-sa-ca-to, de-sa-ca-to

e destaco a autoria... a autoria...

o ator ria... (cá... cá... cá...) revelando a rebeldia, rebeldia, rebeldia...

 

Faço um desacato e destaco o fato

lanço um desafio e afio os dedos.

Vim fazer revolução

virar do avesso o reverso dessa canção

transformar lama em escultura e solução

 

Com inspiração e resistência

contra demência e a violação

do sacro sentido que nos furta ser fruto frutificado.

 

Nos fizeram sonhar a liberdade enquanto somos pássaros acorrentados

 

Roubaram nossas palavras

Incendiaram nossos sonhos

Feriram nosso olhar com o punhal da discórdia

E querem nos fazer aprendizes das lições de covardia.

Querem nos fazer títeres de cabeças atreladas à agonia.

Querem nos impor máscaras

más-caras-nossas de cada-dia

dias-carados... descarados... desmascarados...

 

Querem nos fazer perder o rumo e arruinar nossas cabeças

em prol da falência da lealdade.

Querem nos ludibriar com sorrisos pálidos

e vozes vazias do desmando geral.

Querem nos fazer omissos dos compromissos co'a vida

e submissos aos seus comandos retrógrados.

 

Querem ocupar nossas cabeças

com o jogo da aceitação passiva

da obediência cega

do  t r e i n a m e n t o para cumprir o programa

des-pro-gra-ma-do dos opressores

dos colonizadores – dos colecionadores

de títulos de nobreza falida.

 

Querem nos fazer aprendizes das lições de hipocrisia

e herdeiros das suas mazelas

e das belas formas de segurança aparente.

Querem nos fazer dementes

E aprendizes das suas espertezas

na conquista do falso poder.

 

Querem nos fazer covardes das aparências

e vantagens pessoais aplaudidas nos pedestais

para agradar os senhores da incompetência

e degradar a nossa inteligência.

Querem massacrar nossa coragem

e entorpecer nossa mente

poluir o ambiente e destruir a semente

pelo domínio da vaidade e da letargia.

 

Querem nos submeter a essa fantasia

e aniquilar a arte em nome da mediocridade

e das falsas idéias que têm por guia.

Por isso se for preciso Marchar – Marchemos...

Sem carregar armas nas mãos – Marchemos...

Sem machucar a vida – Marchemos...

 

A poesia da minha geração foi transformada

dos pés descalços de pisar na lama

para os pés bem calçados de pisar cabeças,

tornando escrava a raça do meu país

que escolhe por voto os seus algozes

 

E de segundas intenções

O mundo está óbvio demais...

Está na cara dura do salve-se quem puder

Do salvar a própria pele e sair liso e leso

Pisando em quem pode e chutando

O que vem pela frente...

Ética... pra quê? Se é melhor levar vantagem

 

É assim que muitos... os mesmos de sempre

Sempre e todo dia agem...

E saem rindo como se tivessem

Vencido todas as batalhas e engolido a paisagem

No entanto, já perderam as lutas maiores

No seu vôo rasante rumo à mediocridade

 

São obedientes desnecessários

Pensam que enganam todos os otários

E vivem de favores dos seus proprietários

Já entregaram a própria alma...

E o troco que recebem se reverte na miséria

Que espalham por todos os lados

 

Ganham as paradas e paralisam as verdades

E essa paralisia é tão irreversível

Que se volta contra eles, mas não percebem

Mais nada... pois estão viciados

Nos seu pobres domínios de maldades...

 

Sanguessugas de si mesmos

Solapados de si próprios

Meros meliantes do passado

Defendem o que há de mais retrógrado

E lutam com unhas e bicos... feito urubus

Disputando a carniça fedorenta das suas intrigas

Assim vão destruindo por onde passam

Deixando no seu rastro os restos

Repisados dos seus atos desnorteados

Sem reflexos... circunflexos...

E ensimesmados...

 

Qual é o nosso tempo?

O tempo que tempera

O tempo que atura a temperatura?

Quente, morna, fria, mormacenta...

 

A norma que acentua obedecer?

Baixar a cabeça em direção ao sim?

Dos que me negam ser?

 

Ou transgredir?

Transgredir a ampulheta

Enquanto ‘r e v i r’ a volta

E gira o planeta?

 

Não sou da geração dos anos dourados,

Não sou dos tempos de chumbo e ferro

ditadura, tortura, loucura... ou procura?

 

Tempo de não sei e sei lá

De “toma lá dá cá”

De “to nem aí”

Do “Tá tudo dominado”

C o n t a m i n a d o

por uma virulência servil

vil demência indolente e crente em si

de’simulando o real

na virtual violência anônima...

 

Enquanto eu descobria a ternura

E a clareza translúcida dos cristais

esmagavam nas sombras dos cativeiros os ideais

expulsavam os sonhos, praticavam atrocidades

promoviam o delírio do exílio

Brasil! ame-o ou deixe-o...

slogan patriótico no império caótico

dos fardados enfastiados de si

e sob uma única ordem sem progresso...

“Pra não dizer que não falei das flores”

Anos a fio de domínio e dores

eminências pardas e podres

defecando dogmas e gerando corrupção

plenamente instalada...

Qual é o nosso tempo? Desconhecido? Reconhecido?

Ou transfigurado?

Dominando as cinzas da fênix que precisa renascer

e como conseqüência fome, abandono geral,

assaltos a tênis, caixas eletrônicos,

seqüestros relâmpagos, tráfico, tropas...

e nada mais a acrescentar...

só para não levar vantagem em nada.

 

Cada gesto, cada passo, cada espaço que ocupam

denuncia a intenção de tomar conta de tudo...

 

E impunes, alastram-se

sem camuflar suas infâmias e roubos

bem documentados e acobertados

pelos cargos que ocupam no poder,

falta vergonha na cara

d e s c a r a d a m e n t e

 

Enquanto o povo demente

doente e abandonado

sofre as conseqüências...

Egoísmo disfarçado em discurso de bondade

com voz mansa e jeito de vítima

 

Quanta fortuna ilícita acumulada

a alma vendida... (b)posta à venda

e cada dia, cada ano,

mais velhos, mais feios,

mais deformados vão ficando,

até chegar a hora da morte ou da resposta

 

Vivemos no reino da democracia do privilégio,

é nossa herança atávica do império

mau costume talvez... mania de ser cortês, cortesão arrasta-pé

 

Enquanto duques, condessas,

viscondes e vilões trabalham

no Congresso a serviço

dos senhores de engenho

e pela nova Lei da Escravidão.

 

Liberdade sonho humano de todos os tempos

 

Anseio de vôo intergaláctico

E de poder econômico vislumbrado em moedas

nas prisões, nos pregões das bolsas de valores

nos sabores do luxo até a exaustão da produção

que escraviza sem aviso prévio

o patrão e o empregado preso pelo estômago

no salário homeopático da morte diária disfarçada

 

Mas obedientes aos comandos as marionetes

servem aos seus senhores em troca de pequenos favores

perdem o pensamento próprio

são testas-de-ferro das ideologias dos seus comandantes

 

na ilusão de servir a alguma coisa

que não sabem bem o que é

ou nunca pensaram nisso

ou em outra coisa qualquer

liberdade pra quê?

 

Esta palavra só faz sentido

no vocabulário dos poetas loucos

e dos boêmios embriagados de luar

no mar batendo no rochedo

que nunca teve palavra alguma

mas é soberano de si.

 

Por isso

 

Fartem-se, senhores,

neste banquete de misérias

aproveitem até as migalhas;

nós não precisamos de nada disso

temos de sobra idéias.

 

Aproveitem, senhores,

levem tudo e não deixem restos,

podem arruinar nossos sonhos,

nós ainda temos sonhos,

e os senhores?

Bolsos cheios de cédulas vazias

e cara de hipocrisia,

nós estamos livres para voar,

e os senhores?

Têm os pés acorrentados aos cofres.

 

Nossa bagagem é leve

carregamos dentro do cérebro

a dos senhores pesa toneladas e toneladas

de terra, objetos e detritos;

os senhores carregam a destruição

do planeta nas costas,

e nós somos muitos

caminhando na ponta dos pés sobre o planeta;

tomem conta, senhores, dos seus pacotes,

eles controlam tudo: a informação e a corrupção;

nós não fazemos acordos

somos de algum modo contra tudo isso.

Por isto, senhores,

fartem-se roendo até aos ossos,

esgotem a última gota do nosso suor,

depois calem-se, mas calem-se para sempre,

nós temos muito que fazer,

temos coragem.

 

________________________

 

Passei a ser meu próprio poema

pelo corpo inteiro doendo

pelo corpo inteiro - verso vertido - vestido

 

Presença viva de olhar em volta

Onde estão meus companheiros?

Onde estão sufocados anos a fio?

de chicote nas costas e venda nos olhos

beba coca-cola, beba coca-cola

 

beba um balde de guaraná

Cadê meu sangue afro-tupi?

inca-saxão-ibero-ameríndio

meu sonho moreno, minha aquarela

meu ver azul-amarelo?

 

 

Andei tantas vezes de mochila nas costas

carregando ilusões e serenatas

andei tantas vezes batendo nas mesmas portas

buscando respostas...

sou meu caminho traçado

sou minha festa, sou meu amigo

 

 

Sou meu discurso

não sou nada

não sou um partido

nem um slogan

sou meu próprio poema

pelo corpo inteiro despedaçado.

 

 

Estamos truncados

trocados em miúdos

mudos modificados

moídos emudecidos

r e m o e n d o

 

 

Precisamos imprecisos

precipitados proliferamos

proferimos palavras inúteis

nossas bocas guardam mel e fel

Tomamos de todos os cálices e sobrevivemos

meio grito silencioso

meio palavra interrompida

e apesar do poeta morto

mesmo que seja impossível a poesia

fica a palavra livre e perpétua.

 

Mas ainda somos pássaros acorrentados...

 

Ciência quer transparência

Transcender a forma

Tocar a essência

 

Arte quer inspiração

Construir a Divina proporção

Fazer conspiração

 

Filosofia quer utopia

Realizar poesia

Transcender em Sabedoria

 

Três eixos do conhecimento

Contemplando-se face a face

E diante do maior impasse

Construir a consciência

E conter a Cósmica Ciência no humano ser

 

A intelectualidade organiza o saber

Classifica, divide, analisa, quer provas científicas

Levanta hipóteses... Cria teses e antíteses

Na grande busca de síntese

Faz leituras e releituras

Esmiuça a mínima parte

E reparte-se em realidade

Para a real idéia edificar

Com lógica, analógica, dialógica, metodológica

 

Constrói, des’constrói, reconstrói

Dialéticas, trialéticas

Teorias e práxis

Conceitos, ações - Conceituações...

 

Para assumir a maior de todas as incógnitas...

 

Saber que nada sabe...

MANIFESTO DO RONCADOR

 

Por isso Convocamos:

Guerreiros e Profetas

Lavradores e Poetas

Cientistas e Operários

Jovens, crianças e adultos

Todos convocados

em nome do Amor, da Paz e da Inteligência

Convocados estão os "Jardineiros da Terra"

para a Grande Tarefa de Reconstrução...

 

Aqui, da Região do Roncador

que tem em sua tradição

a união dos povos do Brasil

do litoral ao sertão

de Norte a Sul, de Leste a Oeste

no coração da Terra

Por uma Alvorada de Luz

Dourada-Púrpura-Anil

Brilhando nas cinco estrelas

da constelação do Cruzeiro do Sul

estão todos convocados...

 

Todos para a mudança

Mudança de valores

pelas cores da nossa terra

das nossas matas, da nossa gente

plantamos esta semente

semente de amor e de esperança

pela raça varonil do Brasil

Terra de Luz, poesia e paz

onde a vida floresce a todo custo

custe o que custar todo dia é capaz de mudar

Primeiro a cabeça, os sentimentos

Sentir a mente florir

Sentir-se pássaro e água

raiz de árvore, bicho do mato

sentir-se de fato um ser natural

pronto a arar a lavra

pá lavra, verso e luz

cultura de conhecimentos e lavoura

no cérebro e no chão

com a mão e o coração...

 

Reluz Idéia-semente

Síntese natura-cultura

Dança livre de gestos líricos

Chuva cristalina lavando alma e mente

plenitude viva no coração

POLINIZAÇÃO MENTAL

 

Para que cada um possa ser o Receptáculo-Mater

de uma realização maior, mais lúcida, vibrante e sólida

Unificada pela Inspiração

aspiração do perfume que vem do santuário do nosso interior

e abre os portais de uma nova concepção de vida, ação, amor

 

Pelo fim de todas as armas de destruição

pela união de todos os povos, de todas as nações

numa única Nação, que é o Planeta Terra

 

Por uma Humanidade consciente de si e de suas ações

pela beleza e felicidade geral

pela harmonia do ser humano para consigo mesmo

e para com a natureza...

 

Convocados estão

Guerreiros e Profetas

Lavradores e Poetas

Cientistas e Operários

Todos indistintamente

para que esta semente de Paz e Fraternidade

floresça no coração da terra

 

Aqui, da Região do Roncador

lançado está este alerta

Pelo amor, pela cor...

pela soma das mãos,

pelo som secular,

pelos sonhos em flor...

 

Somos... Sonhamos... Somamos

e assim convocamos toda a Geração

para a Grande Revolução

iluminada pela Luz da Inteligência

e da Consciência Universais...

 

 

em homenagem à geração da palavra proibida

e a todas as gera-ações que sofrem

pela impunidade

 

conspiração da resistência

pela revolução naturo-ético-cultural

 

Nazareth Bizutti

1967/1993/2004