PALAVRA AOS MENINOS

 

Eu queria dizer aos meninos
do meu tempo e de agora,
aos meninos que ainda
podem falar, ver e sentir,
tudo que se passa
neste tempo, neste espaço.

Eu queria dizer aos meninos
que não passem sem olhar
para tudo, para todos.
 
Eu queria dizer aos meninos,
que ainda podem ouvir
e ainda podem falar, que o tempo passa
e a solidão repassa
a alma e cala a vida
dividida e duvidada
entre os poderes perdidos
dos seus poderes podada
a vida reverte em morte
e o amor não nasce.

Eu queria dizer aos meninos,
que ainda estão acordados,
que muitos estão dormindo
de fome, de violência,
cobertos de pele no osso
como um rápido esboço
de morte e resistência.
 
Eu queria dizer aos meninos
que meus olhos estão tristes
de tantas imagens sem vida
e minhas mãos perdidas
sem poder dar as mãos
a outras mãos.
 
Eu queria dizer aos meninos,
que sonham com um mundo novo,
que o velho mundo mofou,
e renascendo das cinzas
outras imagens se formam
só para os que querem ver,
e não adianta chorar
as lágrimas que não temos.
 
Eu queria dizer aos meninos,
que correm e brincam,
que não esqueçam nunca de brincar
e nunca façam do mundo
um campo de batalha
vestindo a mortalha
de uma bandeira qualquer,
que o melhor traje é vestir-se
de branco como um lírio.
 
Eu queria dizer aos meninos,
que olham estrelas no céu,
que dentro de nós existe um brilho maior
uma chama viva que arde intensa
que pensa e faz pensar.
 
Eu queria dizer aos meninos
que muitos sonhos já acabaram
mofando no porão do mundo,
e os mitos estão mortos e sepultados
e as imagens do passado podem queimar
no futuro a ação do presente.
 
Eu queria dizer aos meninos,
que pelos quatro cantos da Terra
estão espalhados,
que só o canto do centro da Terra,
quando unidos os quatro pontos,
será ouvido e entoado
a mil vozes uníssonas;
unidas e unificadas serão então as Nações
e de mãos dadas alçaremos o grande vôo
do Amor Universal na Sabedoria
da Verdade Eterna.

Eu queria dizer aos meninos
que para isto acontecer
é preciso trabalhar
dentro do próprio coração
e tecer no nosso interior um ninho
de amor e paz
capaz de abrigar a vida viva
da chama que arde em nossos corações.


Nazareth Bizutti

Formatado por Denise Alonso