Retorno
 
 
 Eu
Que de origem
Sei não ser quem sou
Parto  sobre penhascos não galgados
Esquecidos
Vendo meu corpo em varais exposto
Feito cotas
Servido em postas a dentes ferinos.
 
 
Rasgo
Todos os conceitos que me tolhem os passos
No tronco crestado
Enrugado
Desperto o olho
A raiz sedenta
Buscando a terra dos meus ancestrais.
 
                                      
Re-apren(den )do a Viver
 
 
Neste quarto de fogo
descubro verdades tão novas
e tão familiares...
Os dias parecem imóveis
como se o tempo não fosse um referencial
e as idades nunca envelhecessem.
 
Neste quarto as chamas não consomem
consentem
serpenteiam pelo corpo
e do peito explodem em miríades de emoções
Consumado o ato
inscrevem-se inapagáveis na memória.
 
Aqui neste quarto não há horas
há um eterno agora de sensações inexpressáveis
que  somente a sensibilidade alcança
É como um instante único
onde a lógica não conta
porque  a loucura é uma banalidade.
 
Aqui neste quarto
palco das minhas elucidações
crio recrio e suspiro em todas as direções
realidades oníricas que inspiram
expandem
e me fazem reconstruir a vida
na amplidão dos versos em que navego.
 
  
Aqui  onde nada há
tudo existe
por isto deixo-me conduzir sem resistência
fragmentando-me
reunificando-me...
vendo-me em todos os lugares ao mesmo tempo
a olhar para mim
sem reticências.
 
 
Assim transito com desenvoltura pelas dimensões
conhecendo todas as minhas potencialidades
e quando penso estar prestes a acordar...
bocejo
adormeço
e vou trabalhar.
 
 
Sonho
 
 
...Ser como o vento
volátil pensamento
entraria brisa mansa
sonoro em mi maior
entre os movimentos sinuosos das cortinas
sem saltos
sem galgar caramanchões
sem tropeços na sacada
entraria de leve
bem leve...
nos mistérios do seu quarto.
 
 
Ah!
 Quem dera...
 
                                      
                          Aquarela
 
A graça
Da garça-morena
Agradava
Aos garços olhos
Da moça cor de açucena
Sorridente
Graciosa
Entre guirlandas de avencas.
 
                                       
                                                                Sol Nascente
                                                                Para Airan
 
 
Em treze veio ao quinto
Bem-vinda arte de  mim
Primeira das obras-primas
Minha menina!
 
 
Nem o encanto dos encantos
Conseguiu os teus encobrir
Tampouco os desencantos
Roubou da face o sorrir
Minha mocinha!
 
 
Enfim formada corpo-alma
Traçando o próprio destino
Robusta vermelha pulsante
Em busca de experiências
Pronta para semear
Mulher!
 
 
Bem-vinda ao Reino das Provações
Amenos sejam os caminhos
Profundos os pensamentos
A noite não dilui a vida
Infinda
Dos nossos ideais.
 
                                       
                                            Além do Êxtase
 
 
Foi um  momento...
Voava espaço a dentro além do infinito
No ritmo das asas o pairar liberto
Repetia-se bailando para o amante
Convidando-o à maciez das emoções
Na terra, a espreitar o vôo
O olhar recolhia a dádiva
O peito sentia
Palavras traduziam pensamentos.
 
 
Foi um  momento...
Um instante onde a lógica não conta
Porque o poeta
Libertando-se da métrica
Entregava ao mundo
A Poesia.
 
                                            
                                            Casalejo
 
Mal não vejo
que me bata à porta
sem o coração pressentir
sentir
sorrir.
 
 
Que entrem
(todas as energias)
minha casa é clara
mente aberta
 
 
de tudo
restará a experiência.
 
                                     
                                        De-lírios
 
Meus delírios
          lírios de vidro
               estilhaçam-se
                   confundidos
                              quando
                                       vivo.
 
 
                                       Sempre
 
Nem sempre é sempre pensando
Que reaprendemos cantando
Os cantos que o canto traz.
 
 
                             Nem sempre é sempre chorando
                             Que vemos  ventos  levando
                             Lágrimas que o pranto faz.
 
 
Nem sempre é sempre buscando
Que encontramos o sorriso
Do  sol que nunca se esvai.
 
 
                             Mas sempre  sempre sabemos
                             Que o dia nos mostra nascendo
                             Prantos que o canto desfaz.
 
 
 
                                               Tércia
 
Imagens tatuam-se na alma
permeiam o drama
alinham-se guerreiras
em campos quase outonais.
 
 
                   Frutos maduros prenunciados na flor.
 
 
Sutil trama sob signos
compostos nas estrofes
implícita linguagem
palavras esforçam-se
infrutífera tradução.
 
 
                Arrefece a chama. Marcas no peito e no papel.
 
 
Recentes rugas
circunscritos gestos
vagos
antigas cenas
lentas
cíclicas
sem girassóis.
 
 
O solitário palmilha
a trilha
no tempo subscrito.
 Enquanto nuvens umedecentes
Alimentam
Outras sementes.
 
                   Que poetisa a vida!
 
 
Trancos
 
 
Tiro o terno
O trono me troca
 
                   O laço, a gravata
                   Suspiro enforcado.
 
Trago o cigarro
O mundo me traga
 
                   Luxúrias, desejos
                   Sutis escarlates.
 
Trinco a vidraça
O caco me sangra
 
                   A lama se espalha
                   O lobo, a tocaia.
 
Tranco meu peito
Parto trancado
 
                   As lágrimas...
                   Secaram!
 
 
                            
       Velha Era
 
 
Desfaz-se o milênio em vozes
dissonantes
 
                        e o século...
 
entorpecidos gestos norteiam enganos
lascivos enganos
vertiginosa queda
préstitos maculam o fruto
proscritos vocábulos enlutam a vela
frenetizam a prece
febris cânticos de crenças
cibernetizadas
nas vitriólicas manhãs.
 
 
Imprimem-se nas memórias ritos
virtuais
 
                        e os reais...
 
o gosto zinábrico dos mares
pranteia olhares
a pele das matas não encobre
o corpo corrompido
cálices  sonambulizam
tramam desatinos
desarticulando pensamentos
agônicos festins de risos escarlates
devaneios de máscaras
sem rumo
nas marés.
 
 
Jazem os versos em  exotéricas
metáforas
 
                                e a poesia...
 
o ritmo das metralhas reacende temporais
vagas transbordam cântaros
profanam lares
alucinadas cidades transidas de temor e tédio
comandos putrefazem a  superfície
radioativam a biosfera
voraz estômago alimenta-se
                               lauto  banquete a humanidade!
lôbrego tempo de mortais quimeras.
 
 
Ó Aquário
       lava com tua benção
                  o limbo   dos corações
                                              orações
                                                       ações...
 
 
 
 
                                                 
                                                   Liços
 
 
Aqui já não resta
rasto
réstia
         ou jasmins
Há um córrego
lacerante
         escavado
                       no ventre
                       veia aberta
         que escorre lacre
      certeiro laço
      da serpente.
 
Aqui há vida e fome
constantes
               tramas
               entrelinhadas
vida sem vida
fome com fome
vida de fome
fome de vida
               sonhos roubados
               terras febris
               faltas sem fim
                                 sem fim...
 
Para onde as asas?
Asas?
              Hum!
              Talvez hipotecadas
              Emparedadas nos regulamentos
que brilham
             no peito
             risível lapela
do dono da voz
 
ou quem sabe
              empalhadas
nas costas
              zôo-lógicas
Do bi...
              bichomem.
 
 
                  Desculpe, foi engano. Disquei errado.
 
Bestuntos lisérgicos mensageiros
Empalhados anjinhos decadentes
Encenam encantadas coniventes
Gemem sudoríparos forniqueiros.
 
              Persistem camafonjes trambiqueiros
              Sem calor encontros maledicentes
              Melentos remelexos de repente...
              Meretrizes endeusam os obreiros.
 
 São somente desejos corriqueiros
Caracóis chepe-chepe velocentes
Difícil encontrar os penitentes
 Cama coito cortesãs cativeiros.
 
              Embora miquelinos passageiros
              Almoçassem as belas condizentes
              Bestiforam-se quentes falarantes
              Laçados enlatados coquetreiros.
 
 Tantos mui patéticos perdigueiros
Nos micrófonos vidas descontentes
De si mesmo fizeram-se ausentes
Pobres almas! Não valem por inteiro.
 
 
   

Alikam

Walter Morais